Nominalscapes
Concerto

“since the notion of the cosmos was too great for men to grasp, the cathedral had to symbolize it in a manner such as the eye and the mind could compass” Willem Elders

A paisagem sonora das cidades modernas é dominada pela omnipresência dos motores dos automóveis e, num plano secundário, das vozes humanas.
A identidade sonora de uma cidade moderna é-nos então dada pelas particularidades fonéticas e fonológicas da pronúncia dos seus habitantes e dos seus marcos sonoros específicos. Em Guimarães, uma cidade fortemente marcada pela cultura cristã, o sino é assim um dos poucos elementos que ainda se consegue sobrepor ao pano de fundo dominado pelos automóveis, uma vez que as próprias condições geográficas da região, caracterizadas pelos seus pequenos montes e colinas, fazem com que o seu som se propague livremente do alto das torres das capelas e igrejas por longas distâncias.
É inegável também a extrema importância cultural do sino na cultura cristã. Para além de ser um símbolo de poder e um marco visual de representação do transcendente de uma ordem inatingível, é usado também para propósitos sociais seculares, actuando como regulador de hábitos comportamentais através da marcação dos períodos de tempo. Nas cidades e tempos modernos, porém, o sino foi perdendo a sua predominância – pela banalização do uso do relógio, com a perda de influência da igreja católica, a introdução de sinos automáticos e eléctricos e o aumento do ruído de fundo. Mas, de um ponto de vista musical, esta transição não significa uma perda de importância na riqueza sónica de uma cidade. O sino mantém as suas características espectrais aperfeiçoadas durante séculos, que podem agora ser analisadas segundo uma perspectiva em que a forte relação histórica do sino com a sua função social pode ser superada pelas suas qualidades estritamente musicais.

Vários estudos recentes têm demonstrado a grande complexidade timbrica dos sinos, algo que tem sido explorado secularmente em várias culturas. O facto da nota fundamental que é percepcionada não estar presente numa grande parte dos sinos (fenómeno psicoacústico denominado altura virtual), os ligeiros desvios de afinação dos principais parciais, a inharmonicidade dos parciais mais graves e agudos ou a produção de mais do que uma nota fundamental (devido às irregularidades de construção), confere aos sinos uma sonoridade rica e misteriosa, em constante mutação. Há vários elementos que não são completamente controlados na sua produção sonora, e estas variáveis fazem com que os sinos sejam elementos musicais sujeitos a diferentes leituras através dos tempos. Os sinos representam assim elos simbólicos transversais aos modos de vida, à espiritualidade das culturas e até à própria história da música, sendo susceptíveis de serem apreendidos tanto pelo olho como pela mente humanas.

Composto e interpretado por Fritz Hauser, Jorge Queijo, Brendan Hemsworth, João Filipe, Gustavo Costa e Henrique Fernandes.
Curadoria de Benjamin Brejon, Ewen Chardronnet, Manuel João Neto, Jonathan Saldanha e Filipe Silva para o Sonores | sound / space / signal, Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012.
Imagem de Mónica Baptista.